Curtir sem vacilo: entenda como funciona a rede de suporte ao dependente químico | Unibave
Voltar

Você está em: Página inicialInstitucionalNotícias › Curtir sem vacilo: entenda como funciona a rede de suporte ao dependente químico

Notícias

Curtir sem vacilo: entenda como funciona a rede de suporte ao dependente químico

04 de setembro de 2019 - , , ,

O consumo de drogas, lícitas e ilícitas, é tema de diversos debates porque não escolhe idade, raça, religião ou orientação sexual. Visando uma abordagem livre de tabus e julgamentos, o Centro Universitário Barriga Verde – Unibave lançou a campanha de combate ao uso de drogas “Curtir sem vacilo”. Entre as ações da iniciativa, está uma série de reportagens sobre a temática.

Desta vez, vamos trazer informações sobre o suporte disponível para os dependentes químicos em um bate-papo com o psicólogo Lucas Silveira, que é especialista em Saúde Mental e Mestre em Saúde da Família pela Universidade Federal do Ceará e já atuou como professor no Unibave, vamos abordar a temática de maneira a trazer ainda mais informações para a comunidade acadêmica.

Unibave – Lucas, é muito comum ouvirmos que o pedido de ajuda deve partir do usuário, que uma situação forçada não é positiva. Isso é verdade?

Lucas – Quando nós, profissionais da Saúde Pública, abordamos a dependência química temos que levar em consideração diversos fatores, o primeiro deles é a importância de partirmos da premissa ética de que “cada caso é um caso”. No momento em que categorizarmos que quem deve pedir ajuda primeiro é o usuário, estaremos usando de uma generalização e engessando o cuidado, lembrando que se falamos em Projeto Terapêutico Singular – PTS tanto na realidade da Estratégia Saúde da Família – ESF quanto nos Caps, a lógica de cuidado deve ser construída com o usuário e sua família, seu entorno social. Dessa forma, nós podemos, sim, sensibilizar o usuário, mostrando os fatores de risco associados ao uso de substâncias químicas lícitas e ilícitas, auxiliando este a buscar ajuda, apoio e escuta na rede.

Há casos em que o simples fato de sensibilizar o usuário quanto aos riscos, estamos ajudando este usuário a dar um passo importante no tratamento. Só para acrescentar uma informação relevante, existem quatro fases no tratamento da dependência química: pré-contemplação, contemplação, ação e manutenção. Na primeira, o usuário não aceita que tem um problema com o uso, na segunda fase ele começa a perceber que talvez o uso seja nocivo e nas demais temos o tratamento em si. Dessa forma, mesmo o usuário estando em pré-contemplação, nós podemos auxiliá-lo. Vale ressaltar que a abstinência não é o ideal de tratamento de todos os casos e mais uma vez é importante levarmos em consideração a singularidade do sujeito, seus “aspectos biopsicossociais”.

Unibave – Quando a ajuda é procurada, como funciona a rede de apoio?

Lucas – Geralmente, o usuário busca tratamento quando está com várias esferas de sua vida prejudicadas devido ao uso da substância, seja a esfera familiar, comunitária, financeira, etc. Trabalhei durante um ano no Caps-AD em Lages-SC e acolhíamos muitos usuários em situação de rua, na maioria das vezes, com histórico de conflitos familiares, uso de crack e envolvimento com o tráfico. Infelizmente, ainda há um preconceito gigantesco em relação a imagem do usuário. De tanto as pessoas dizerem que eles são “marginais”, “drogados”, estes acabam por internalizar que não são mais cidadãos e isso contribui para que o ciclo da dependência se feche, aumentando as barreiras que afastam o usuário da rede, e tudo isso, infelizmente, configura-se como algo “irreparável”, sem prognóstico favorável, sem solução.

Por isso que na Saúde Pública trabalhamos com a lógica da Redução de Danos – RD que consiste basicamente em ofertar o que aquele sujeito necessita naquele dia, seja um banho, uma alimentação, uma escuta, um acolhimento digno e sem julgamentos morais. O Sistema Único de Saúde – SUS funciona em rede, temos a ESF que oferta a Atenção Básica, ou seja, a porta de entrada para aqueles cuidados em saúde cujo nível de complexidade não demandam exames tão específicos ou atendimentos especializados. É aqui que as ações de educação em saúde podem ocorrer, no seio da comunidade, ações que visam a prevenção de doenças, agravos, como a dependência química, por exemplo. Devemos partir da ideia de que quanto mais conhecimento, mais campanhas e ações que consigam levar isso à população adscrita, mais êxito teremos na promoção da saúde e prevenção de doenças.

Na atenção secundária do SUS temos os Caps, seja qual for a modalidade – Caps I, Caps II, Capsi, Caps AD – esse espaço tem um protagonismo imenso quando o assunto é dependência química, entretanto, protagonismo não significa que só o Caps vai intervir nos casos de dependência química, pois o usuário não se reduz ao diagnóstico de dependência, ele pode ser hipertenso, pode ter desenvolvido um quadro de anemia ferropriva devido ao estado nutricional, pode ter tuberculose, e por isso, deve ser atendido na Unidade Básica de Saúde – UBS. Toda a rede é responsável pelo usuário.

Acrescento ainda que os profissionais que criam “regras”, seja na UBS ou no Caps, estão formando mais uma barreira para o acesso do usuário. De nada adianta saber o mecanismo de ação de todas as substâncias lícitas, ilícitas, decorar os protocolos de atenção, utilizar com maestria os instrumentos de rastreamento para dependência química e não saber escutar, não ser empático.

O principal desafio que eu mais vejo, hoje, é escutar o sujeito. Nunca vou esquecer de um usuário do Caps AD que disse, no dia posterior ao acolhimento, ficou muito feliz quando uma profissional técnica de Enfermagem perguntou como ele estava, e aquilo para ele foi o maior motivador para o tratamento, pois há anos ninguém havia perguntado como ele estava.

 

Unibave – Se o conhecimento é a ferramenta de combate ao preconceito, como você acha que podemos trabalhar isso na sociedade de forma geral?

Lucas – Acredito que hoje nós temos muita informação circulando por aí, seja nas redes sociais, seja na comunidade, etc. Entretanto, informação não é conhecimento, este requer uma mediação, uma reflexão. A simples informação sem interpretação, sem uma análise crítica se torna algo supérfluo, inútil, somente passível de consumo. No momento em que há uma mediação eficaz, daí sim nós falamos em conhecimento, tem muita informação por aí, agora, conhecimento pouco vejo.

Ao pensar em uma campanha, por exemplo, precisamos fazer uma reflexão para qual público se destina, quais os principais objetivos, posteriormente, procedermos a um levantamento de dados pertinentes ao que se pretende. Hoje, as campanhas sobre drogas estão melhorando, paulatinamente, no entanto, temos muitos desafios pois ainda vejo uma “demonização” das drogas, como se a droga por si só causasse todos esses transtornos que vemos todos os dias.

Unibave – Ao falar sobre a importância do apoio, qual mensagem você deixa para uma pessoa que tem a oportunidade de auxiliar um dependente químico?

Lucas – O simples fato de se dispor a escutar essa pessoa já é um diferencial, e quando digo escutar, é escutar mesmo, sem fazer comparações com outras pessoas ou outros problemas. Cada pessoa é única, como diz aquela música “cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”, então, o apoio, a escuta e, principalmente, o respeito quanto as escolhas do sujeito é caminho mais próspero na abordagem da dependência química.